sábado, 27 de março de 2010

A Alegria na Tristeza


O título desse texto na verdade não é meu, e sim de um poema do uruguaio Mario Benedetti. No original, chama-se "Alegría de la tristeza" e está no livro "La vida ese paréntesis" que, até onde sei, permanece inédito no Brasil.O poema diz que a gente pode entristecer-se por vários motivos ou por nenhum motivo aparente, a tristeza pode ser por nós mesmos ou pelas dores do mundo, pode advir de uma palavra ou de um gesto, mas que ela sempre aparece e devemos nos aprontar para recebê-la, porque existe uma alegria inesperada na tristeza, que vem do fato de ainda conseguirmos senti-la. Pode parecer confuso mas é um alento.
Olhe para o lado: estamos vivendo numa era em que pessoas matam em briga de trânsito, matam por um boné, matam para se divertir. Além disso, as pessoas estão sem dinheiro. Quem tem emprego, segura. Quem não tem, procura. Os que possuem um amor desconfiam até da própria sombra, já que há muita oferta de sexo no mercado. E a gente corre pra caramba, é escravo do relógio, não consegue mais ficar deitado numa rede, lendo um livro, ouvindo música. Há tanta coisa pra fazer que resta pouco tempo pra sentir. Por isso, qualquer sentimento é bem-vindo, mesmo que não seja uma euforia, um gozo, um entusiasmo, mesmo que seja uma melancolia. Sentir é um verbo que se conjuga para dentro, ao contrário do fazer, que é conjugado pra fora.Sentir alimenta, sentir ensina, sentir aquieta. Fazer é muito barulhento.Sentir é um retiro, fazer é uma festa.
O sentir não pode ser escutado, apenas auscultado. Sentir e fazer, ambos são necessários, mas só o fazer rende grana, contatos, diplomas, convites, aquisições. Até parece que sentir não serve para subir na vida.Uma pessoa triste é evitada. Não cabe no mundo da propaganda dos cremes dentais, dos pagodes, dos carnavais.
Tristeza parece praga, lepra, doença contagiosa, um estacionamento proibido. Ok, tristeza não faz realmente bem pra saúde, mas a introspecção é um recuo providencial, pois é quando silenciamos que melhor conversamos com nossos botões. E dessa conversa sai luz, lições, sinais, e a tristeza acaba saindo também, dando espaço para uma alegria nova e revitalizada.
Triste é não sentir nada!

(Martha Medeiros)

"Até bem pouco tempo atrás, poderíamos mudar o mundo,

(...) quem roubou nossa coragem?
Tudo é dor, e toda dor vem do desejo, de não sentimos dor..."


segunda-feira, 15 de março de 2010

Muitas chances numa única chance!


"Qualquer coisa que estraga em sua casa, minha mãe chama o Leonel.
Telhados, ar condicionado, piso, rachaduras, ventiladores de teto.
Ele mora na mesma quadra e nunca demora a vir.
Enquanto cimentava a escada do pátio, Leonel levantava altivamente o rosto quando provocava a figura materna. Atento, gargalhava a cada disparo de afeto.
Ao guardar a pá e o carrinho de mão, confessou:
- Minha mãe morreu quando nasci. Vejo vocês e tenho saudade da saudade.
Partilho semelhante inveja.
Quando vou sozinho a um restaurante, não canso de espiar as conversas de casais.
Eu me interesso pelos assuntos mais frívolos.
Ponho a mão no queixo, o guardanapo nos joelhos e admiro o espetáculo da intimidade.
O amor que pode ser amor ali, acontecendo em minha frente entre descrições de trabalho e confissões de meio-dia. O amor ali, camuflado e prosaico,
mas devidamente forte para atravessar a morte e prometer vida eterna
mesmo que não tenha eternidade depois.
Mesmo que um dos dois sequer acredite em Deus.
Há gente que faz o contrário de Leonel. Mata o amor no momento em que ele nasce.
Pois não pensem que todos querem um amor grande. Reclamam, mas não querem.
Há gente que diminui o amor de propósito para não sofrer com ele.
Elabora uma versão para provar que ele não existiu.
Deixam o amor escapar, sumir, desaparecer para não se atrapalhar.
Há gente que até se convence que aquele amor grande não era devidamente grande.
Há gente que pede um amor pequeno, doméstico, que não desestruture seus hábitos.
Um amor anão de jardim, um amor de balcão, de pé, rápido.
Um amor minúsculo, sem acento, que não rivalize o amor próprio.
Que esteja próximo mas não fale alto, que esteja perto mas não influencie,
que seja chamado quando se tem vontade e seja desfeito quando não serve mais.
O amor grande não traz uma felicidade constante - é a principal cilada -,
traz uma felicidade irregular, intensa, atávica, que voa muito mais alto do que o conforto.
Na estabilidade, é fácil sair da felicidade e da tristeza.
No amor, descobrimos o quanto podemos ser felizes,
e incomoda ter que buscar mais felicidade.
Descobrimos o quanto podemos também ser tristes,
e incomoda que não sairemos da tristeza sem que o amor volte.
Há gente que não tem esperança para se arrepender.
Que sente ciúme de não ter sido assim antes e não se permite não ser mais como antes.
Que vai terminar o amor para não se mostrar incompetente.
Que prefere adiar o julgamento a se abrir para a verdade.
Que não perdoa no momento de se perdoar.
Um amor miúdo vai ao psiquiatra de manhã e termina a relação de noite.
O amor grande termina com psiquiatra de manhã e se reconcilia à noite.
Porque o amor grande é uma insanidade lúcida, nem os melhores amigos entendem,
é detratar e se retratar com mais freqüência do que se gostaria.
Amor é o excesso de responsabilidade, de encargo, confiado a quem nos acompanha.
Oferecemos o que não conseguimos alcançar.
Sempre seremos menores do que ele, já que é o único que cresce na extinção.
Minha mãe costuma dizer que casamos quando encontramos uma solidão maior do que a nossa - só assim saímos da própria solidão.
Há gente, sim, que muda de amor para não mudar de opinião,
que muda de homem para não mudar sua rotina,
que manda onde não vigora poder e dominação.
Que culpa o amor por não dar conta dele, que ama já pedindo desculpa por não amar.
O amor grande não é um grande amor.
Há gente, eu conheço, que desperdiça a chance do amor grande
porque há apenas uma chance para amar grande.
Muitas chances dentro de uma chance.
O resto são disfarces, suturas, apoios. Amor grande seria insuportável duas vezes nesta vida.
Ou a gente se apequena para receber esse amor
ou permanece se engrandecendo para não aceitá-lo."




Não resisti a este texto e roubei do Blog da Adélia!
Visitem: www.respingosadelia.blogspot.com

sábado, 6 de março de 2010


"...Se você quer que eu feche os olhos pra alguém que foi viver algum dia lá fora. E nesse dia se o mundo acabar não vou ligar praquilo que não fiz.
Faz muito pouco tempo aprendi a aceitar quem é dono da verdade não é dono de ninguém. Só não se esqueça que atráz do veneno das palavras resta só o desespero de ver tudo mudar. Talvez até porque ninguem mude por você..."

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Ostra feliz não faz pérola!


As pérolas são uma ferida curada.
Pérolas são produto da dor, resultado da entrada de uma substância estranha ou indesejável no interior da ostra, como um parasita ou um grão de areia.
A parte interna da concha de uma ostra é uma substância lustrosa chamada nácar. Quando um grão de areia penetra, as células do nácar começam a trabalhar e cobrem o grão de areia com camadas e mais camadas para proteger o corpo indefeso da ostra. Como resultado, uma linda pérola é formada.Uma ostra que não foi ferida, de algum modo, não produz pérolas, pois a pérola é uma ferida cicatrizada.
Produza uma pérola...
Cubra suas mágoas e as rejeições sofridas com camadas e camadas de amor.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Espanto


"ela entrou, deitou-se no divã e disse: "acho que estou ficando louca". eu fiquei em silêncio aguardando que ela me revelasse os sinais da sua loucura. "um dos meus prazeres é cozinhar. vou para a cozinha, corto as cebolas, os tomates, os pimentões - é uma alegria! entretanto, faz uns dias, eu fui para a cozinha para fazer aquilo que já fizera centenas de vezes: cortar cebolas. ato banal sem surpresas. mas, cortada a cebola, eu olhei para ela e tive um susto. Percebi que nunca havia visto uma cebola. aqueles anéis perfeitamente ajustados, a luz se refletindo neles: tive a impressão de estar vendo a rosácea de um vitral de catedral gótica. de repente, a cebola, de objeto a ser comido, se transformou em obra de arte para ser vista! e o pior é que o mesmo aconteceu quando cortei os tomates, os pimentões... agora, tudo o que vejo me causa espanto."

sábado, 6 de fevereiro de 2010

A Implosão da Mentira



Mentiram-me. Mentiram-me ontem
e hoje mentem novamente. Mentem
de corpo e alma, completamente.
E mentem de maneira tão pungente
que acho que mentem sinceramente.

Mentem, sobretudo, impune/mente.
Não mentem tristes. Alegremente
mentem. Mentem tão nacional/mente
que acham que mentindo história afora
vão enganar a morte eterna/mente.

Mentem. Mentem e calam. Mas suas frases
falam. E desfilam de tal modo nuas
que mesmo um cego pode ver
a verdade em trapos pelas ruas.

Sei que a verdade é difícil
e para alguns é cara e escura.
Mas não se chega à verdade pela mentira,
nem à democraciapela ditadura.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

2010 motivos para ser feliz!


Para mim, para você, para todos nós...

Que o salário aumente.
Que a calça entre.
Que a unha não quebre.
Que cafeína não falte.
Que o secador não queime.
Que o namorado (a) te aguente.
Que a TPM acabe.
Que o salão não feche.
Que o cartão não estoure.
Que o dólar caia.
Que a bunda levante.
E paz na Terra aos homens de boa vontade.

AMÉM!

domingo, 27 de dezembro de 2009

"Toda despedida é dor... tão doce todavia, que eu te diria boa noite até que amanhecesse o dia..."

Estalo


Ontem ouvi que eu era uma pessoa difícil!
Derepente um estalo, um clarão me cegou os olhos
Me amem, ou me odeiem..minha filosofia constante
Extremismo, bipolaridade... Como será ser normal?
Às vezes não sei bem quem sou. O doce Anjo ou o fugaz errante?
Confundo-me entre declarações e insultos
Entre certezas e dúvidas
Sou a palavra doce para uns
E a música triste para outros
Às vezes eu nem sei se sou real.
Não sei se o erro está em mim ou no mundo...é muito confuso!
A proximidade às vezes me incomoda, mais a distância me assusta.
Os sentimentos me martirizam, mais a ausência deles me anula.
Em momentos sentir me faz falta.
Apaixonante ou decepcionante? Depende de como você me vê
Dependo de em que momento você me vê.
Sou uma mistura de incerteza e convicção... Instabilidade.
Ontem estava apaixonada, amanhã?
Por favor, alguém se lembra do ultimo capitulo da novela?
Peraí! Eu nem assistia novela!
Minhas certezas são certezas diferentes a cada dia.
Hoje sou um vulcão prestes a explodir
Talvez eu acorde flor amanhã...

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Deficiências



Deficiente é aquele que não consegue modificar sua vida, aceitando as imposições de outras pessoas ou da sociedade em que vive, sem ter consciência de que é dono do seu destino.
Louco é quem não procura ser feliz com o que possui.
Cego é aquele que não vê seu próximo morrer de frio, de fome, de miséria, e só tem olhos para seus míseros problemas e pequenas dores.
Surdo é aquele que não tem tempo de ouvir um desabafo de um amigo, ou o apelo de um irmão. Pois está sempre apressado para o trabalho e quer garantir seus tostões no fim do mês.
Mudo é aquele que não consegue falar o que sente e se esconde por trás da máscara da hipocrisia.
Paralítico é quem não consegue andar na direção daqueles que precisam de sua ajuda.
Diabético é quem não consegue ser doce.
Anão é quem não sabe deixar o amor crescer.
E, finalmente, a pior das deficiências é ser miserável, pois:
Miseráveis são todos que não conseguem falar com Deus.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

O macaco e a macaca discutem...

"Sentados num galho de árvore, o macaco e a macaca contemplavam o pôr-do-sol. Em determinado momento, ela perguntou:

-O que faz com que o céu mude de cor, na hora que o sol atinge o horizonte??

-Se quisermos explicar tudo, deixamos de viver?, respondeu o macaco.
Fique quieta, vamos deixar o nosso coração alegre com este entardecer romântico?

A macaca enfureceu-se.

-Você é primitivo e supersticioso. Já não dá mais atenção à lógica, e só quer saber é de aproveitar a vida?

Neste momento, passava uma centopéia.

- Centopéia! - gritou o macaco - Como é que você faz para mover tantas patas em perfeita harmonia??

- Nunca pensei nisso!? - foi a resposta.

- Então pense! Minha mulher gostaria de uma explicação!?

A centopéia olhou para suas patas, e começou:

- Bem... eu flexiono este músculo? Não, não é bem isso, eu tenho que jogar o meu corpo por aqui??

Durante meia-hora, tentou explicar como movia suas patas, e, à medida que tentava, ia confundindo-se cada vez mais. Quando quis continuar seu caminho, já não podia mais andar.

- Está vendo o que você fez?? - gritou desesperada. - Na ânsia de descobrir como funciono, perdi os movimentos!?

- Está vendo o que acontece com quem deseja explicar tudo?? - disse o macaco, voltando a assistir o pôr-do-sol em silêncio."



terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Jogue os dados!


"Eu andei jogando. Apostei todas as minhas fichas e no final perdi todas. Talvez eu devesse mesmo ter sido mais precavida, quem sabe até ter montado uma estratégia analisando melhor os adversários... Talvez não. Eu perdi as fichas. As fichas se foram dando espaço para a experiência para algum tipo de orgulho. Não desejo voltar atrás... Não mesmo! Terei mais audácia na próxima rodada. E sinceramente não acredito que as regras façam diferença agora. Deixarei de estudá-las sendo assim. Nesse jogo esqueça a sorte, o que vale é o objetivo e a convicção dos próximos passos. Te envolva e não te arrependas. Segure firme esses dados é a tua vez..."